Tropa de Elite: osso duro de roer

Quarta-feira, 24, 07 at 8:24 pm 4 comentários

Gente, estou passando pra vcs algumas discussões interessantes sobre o filme “Tropa de Elite”, que foram publicadas no Yahoo Grupos do Fórum dos Cursinhos Populares do Estado:

***
Negrada,

Este texto do Ivan Pinheiro sobre o panfleto cimatográfico facista “Tropa de Elite” sintetiza brilhantemente o que penso sobre o filme. Não podemos cair na idéia de que o filme deva ser avaliado esteticamente ou que ele é bom pois “mostra” a realidade. Ele não é bom nem do ponto de vista estético e nem “mostra” a realidade, ao contrário, a filtra e manipula. Todos nós, negros e negras, sabemos que a única força militar em que o negro ascendeu hierarquicamente foi a polícia militar (o mesmo não ocorreu na Marinha, Exército e Aeronáutica). Este fenômeno tem raízes históricas. No entanto, o que mais me surpreende foi o diretor do filme utilizar um personagem negro, dialogando com muito de nossos dramas (relacionamento inter-racial e de classes sociais distintas, o estudo associado ao trabalho etc) para nos levar a pensar que a única alternativa possível (pois a sociedade branca é dominada por “viciados” e filinhos-de-papai que nos interditam a ascensão social) é matar “baiano” (corruptela para negro e que no jargão policial significa “bandido”). Quer dizer, como no tempo da escravização, e aqui parafraseando Machado de Assis, o negro mata o negro ou o captura – como faziam os capitães do mato – para dar uma “vida feliz e digna a si e aos seus filhos”. Esta versão foi naturalizada e o que o filme faz é reforçar na sociedade – inclusive entre setores da intelectualidade de esquerda – a idéia de que isso é a “realidade”. Existe uma dialética aqui: o ódio de classe e de raça de Mathias é o que faz tomar a decisão de ingressar no Bope e matar “baiano”, ou seja, é este ressentimento que o faz optar por se tornar o cão de guarda da burguesia e garantir segurança para aquilo que, no fundo, mais odeia. Pois os “baianos” são um perigo para a burguesia branca endinheirada e para a classe média alta que não querem ceder um centímetro de seu status social e é sequiosa em manter o seu mesmo padrão europeu-americano de consumo e esbanjamento. O racistas riem de nós (e nem preciso dizer que o cineasta concorda com este ponto de vista): somos incapazes de criar um projeto político, de nos contrapor a esta ordem de coisas. Quando queremos fazer justiça, nos embrenhamos e alimentamos na máquina de matar e de aniquiliar que está apontada para nós mesmos…Do meu ponto de vista, o filme é extremamente racista! Eu não acredito em neutralidade e nem considero o campo artístico dissociado completamente das demais esferas de sociabilidade (pois mais que se esforcem para isso, criando um campo autônomo que se normatiza por regras próprias). A reação da classe média ao filme não deixa de ser abjeta e demonstra como o pensamento conservador está enraizado e cristalizado em amplas fatias da sociedade brasileira.

Ashé e luta,

Fábio Nogueira.

TROPA DE ELITE: A CRIMINALIZAÇÃO DA POBREZA!

Ivan Pinheiro é Secretário Geral do PCB

“Homem de preto.
Qual é sua missão?
É invadir favela
E deixar corpo no chão”
(refrão do BOPE)

Não dá cair no papo furado de que “Tropa de Elite” é “arte pura” ou “obra aberta”. Um filme sobre questões sociais não podia ser neutro. Trata-se de uma obra de arte objetivamente ideológica, de caráter fascista, que serve à criminalização e ao extermínio da pobreza. É possível até que os diretores subjetivamente não quisessem este resultado, mas apenas ganhar dinheiro, prestígio e, quem sabe, um Oscar. Vão jurar o resto da vida que não são de direita. Aliás, você conhece alguém no Brasil, ainda mais na área cultural, que se diga de direita?

Como acredito mais em conspirações do que no acaso, não descarto a hipótese de o filme ter sido encomendado por setores conservadores. Estou curioso para saber quais foram os mecenas desta caríssima produção, que certamente foi financiada por incentivos fiscais.

O filme tem objetivos diferentes, para públicos diferentes. Para os proletários das comunidades carentes, o objetivo é botar mais medo ainda na “caveira” (o BOPE, os “homens de preto”). O vazamento escancarado das cópias piratas talvez seja, além de uma estratégia de marketing, parte de uma campanha ideológica. A pirataria é a única maneira de o filme ser visto pelos que não podem pagar os caros ingressos dos cinemas. Aliás, que cinemas? Não existe mais um cinema nos subúrbios, a não ser em shopping, que não é lugar de pobre freqüentar, até porque se sente excluído e discriminado.

No filme, os “caveiras” são invencíveis e imortais. O único que morre é porque “deu mole”. Cometeu o erro de ir ao morro à paisana, para levar óculos para um menino pobre, em nome de um colega de tropa que estava identificado na área como policial. Resumo: foi fazer uma boa ação e acabou assassinado pelos bandidos.

Para as classes médias e altas, o objetivo do filme é conquistar mais simpatia para o BOPE, na luta dos “de cima”, que moram embaixo, contra os “de baixo”, que moram encima.

Os “homens de preto” são glamourizados, como abnegados e incorruptíveis. Apesar de bem intencionados e preocupados socialmente, são obrigados a torturar e assassinar a sangue frio, em “nosso nome”. Para servir à “nossa sociedade”, sacrificam a família, a saúde e os estudos. Nós lhes devemos tudo isso! Portanto, precisam ser impunes. Você já viu algum “caveira” ser processado e julgado por tortura ou assassinato? “Caveira” não tem nome, a não ser no filme. A “Caveira” é uma instituição, impessoal, quase secreta.

Há várias cenas para justificar a tortura como “um mal necessário”. Em ambas, o resultado é positivo para os torturadores, ou seja, os torturados não resistem e “cagüetam” os procurados, que são pegos e mortos, com requintes de crueldade. Fica outra mensagem: sem aquelas torturas, o resultado era impossível.

Tudo é feito para nos sentirmos numa verdadeira guerra, do bem contra o mal. É impossível não nos remetermos ao Iraque ou à Palestina: na guerra, quase tudo é permitido. À certa altura, afirma o narrador, orgulhoso : “nem no exército de Israel há soldados iguais aos do BOPE”.

Para quem mora no Rio, é ridículo levar a sério as cenas em que os “rangers” sobem os morros, saindo do nada, se esgueirando pelas encostas e ruelas, sem que sejam percebidos pelos olheiros e fogueteiros das gangues do varejo de drogas! Esta manipulação cumpre o papel de torná-los ainda mais invencíveis e, ao mesmo tempo, de esconder o estigmatizado “Caveirão”, dentro do qual, na vida real, eles sobem o morro, blindados. O “Caveirão”, a maior marca do BOPE, não aparece no filme: os heróis não podem parecer covardes!

O filme procura desqualificar a polêmica ideológica com a esquerda, que responsabiliza as injustiças sociais como causa principal da violência e marginalidade. Para ridicularizar a defesa dos direitos humanos e escamotear a denúncia do capitalismo, os antagonistas da truculência policial são estudantes da PUC, “despojados de boutique”, que se dão a alguns luxos, por não terem ainda chegado à maioridade burguesa.

Os protestos contra a violência retratados no filme são performances no estilo “viva rico”, em que a burguesia e a pequena-burguesia vão para a orla pedir paz, como se fosse possível acabar com a violência com velas e roupas brancas, ou seja, como se tratasse de um problema moral ou cultural e não social.

A burguesia passa incólume pelo filme, a não ser pela caricatura de seus filhos que, na Faculdade, fumam um baseado e discutem Foucault. Um personagem chamado “Baiano” (sutil preconceito) é a personificação do tráfico de drogas e de armas, como se não passasse de um desses meninos pobres, apenas mais espertos que os outros, que se fazem “Chefe do Morro” e que não chegam aos trinta anos de idade, simples varejistas de drogas e armas, produtos dos mais rentáveis do capitalismo contemporâneo. Nenhuma menção a como as drogas e armas chegam às comunidades, distribuídas pelos grandes traficantes capitalistas, sempre impunes, longe das balas achadas e perdidas. E ainda responsabilizam os consumidores pela existência do tráfico de drogas, como se o sistema não tivesse nada a ver com isso!

O Estado burguês também passa incólume pelo filme. Nenhuma alusão à ausência do Estado nas comunidades carentes, principal causa do domínio do banditismo. Nenhuma denúncia de que lá falta tudo que sobra nos bairros ricos. No filme, corrupção é um soldado da PM tomar um chope de graça, para dar segurança a um bar. Aliás, o filme arrasa impiedosamente os policiais “não caveiras”, generalizando- os como corruptos e covardes, principalmente os que ficam multando nossos carros e tolhendo nossas pequenas transgressões, ao invés de subirem o morro para matar bandido.

A grande sacada do filme é que o personagem ideológico principal não é o artista principal. Este, branco, é o que mais mata. Ironicamente, chama-se Nascimento. É um tipo patológico, messiânico, sanguinário, que manda um colega matar enquanto fala ao celular com a mulher sobre o nascimento do filho.

Mas para fazer a cabeça de todos os públicos, tanto os “de cima” como os “de baixo”, o grande e verdadeiro herói da trama surge no final: Thiago, um jovem negro, pacato, criado numa comunidade pobre, que foi trabalhar na PM para custear seus estudos de Direito, louco para largar aquela vida e ser advogado. Como PM, foi um peixe fora d’água: incorruptível, respeitava as leis e os cidadãos. Generoso, foi ele quem comprou os óculos para dar para o menino míope. Sua entrada no BOPE não foi por vocação, mas por acaso.

Para ficar claro que não há solução fora da repressão e do extermínio e que não adianta criticar nem fazer passeata, pois “guerra é guerra”, nosso novo herói se transforma no mais cruel dos “caveiras” da tropa da elite, a ponto de dar o tiro de misericórdia no varejista “Baiano”, depois que este foi torturado, dominado e imobilizado. Para não parecer uma guerra de brancos ricos contra negros pobres, mas do bem contra o mal, o nosso herói é um “caveira” negro, que mata um bandido “baiano”, de sua própria classe, num ritual macabro para sinalizar uma possibilidade de “mobilidade social”, para usar uma expressão cretina dos entusiastas das “políticas compensatórias” .

A fascistização é um fenômeno que vem sendo impulsionado pelo imperialismo em escala mundial. A pretexto da luta contra o terrorismo, criminalizam- se governos, líderes, povos, países, religiões, raças, culturas, ideologias, camadas sociais.

Em qualquer país em que “Tropa de Elite” passar, principalmente nos Estados Unidos e na Europa, o filme estará contribuindo para que a sociedade se torne mais fascista e mais intolerante com os negros, os imigrantes de países periféricos e delinqüentes de baixa renda.

No Brasil, a mídia burguesa há muito tempo trabalha a idéia de que estamos numa verdadeira guerra, fazendo sutilmente a apologia da repressão. Sentimos isso de perto. Quantas vezes já vimos pessoas nas ruas querendo linchar um ladrão amador, pego roubando alguma coisa de alguém? Quantas vezes ouvimos, até de trabalhadores, que “bandido tem que morrer”?

Se não reagirmos, daqui a pouco a classe média vai para as ruas pedir mais BOPE e menos direitos humanos e, de novo, fazer o jogo da burguesia, que quer exterminar os pobres, que só criam problemas e ainda por cima não contam na sociedade de consumo. Daqui a pouco, as milícias particulares vão se espalhar pelo país, inspiradas nos heróicos “homens de preto”, num perigoso processo de privatização da segurança pública e da justiça. Não nos esqueçamos do modelo da “matriz”: hoje, os mais sanguinários soldados americanos no Iraque são mercenários recrutados por empresas particulares de segurança, não sujeitos a regulamentos e códigos militares.

Parafraseando Bertolt Brecht, depois vai sobrar para nós, que teimamos em lutar contra o fascismo e a barbárie, sonhando com um mundo justo e fraterno.

A trilha sonora do filme já avisou:

“Tropa de Elite,
Osso duro de roer,
Pega um, pega geral.
Também vai pegar você!”

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OSB faz apresentação única em Vitória Aquecimento global: risco também para saúde

4 comentários Add your own

  • 1. Giovane (aluno do superação)  |  Quinta-feira, 1, 07 às 5:06 pm

    Apesar de eu ter pensamento de esquerda, ñ vejo como certa a visão de Ivan Pinheiro. Uma coisa é a “defesa da classe média”, outra totalmente contrária é a omissão p/com o crime.
    A polícia do RJ anda mal, corrupção existe de fato, qtas vzs eu fui no RJ e ouvi falar de “arrego”, suborno dado aos pm’s p/deixarem o tráfico fluir. O q o filme faz p/mim na verdade, é relatar q dentro da pm existem policias honestos e desonestos (caso q no RJ a maior parte seja desonesta).
    O filme tem q ser analizado de forma mais abrangente, onde de fato se analizam as duas faces da moeda, “ñ amolecendo” com o crime e tbm ñ condenando totalmente a pm.

    Responder
  • 2. Jussara  |  Sábado, 3, 07 às 12:01 pm

    Ei, Giovane!

    Assisti ao filme Tropa de Elite duas vezes. Na primeira, achei muito bom e fiquei empolgada porque o longa denuncia muita coisa que considero fundamental, como o fato de a “classe média” financiar o tráfico, ou seja, esse pessoalzinho que fica reclamando da violência e que vive em condomínio fechado, na verdade, é co-responsável pelo aumento da criminalidade e pela morte de milhares de jovens que ingressam no tráfico toda vez que cheira cocaína ou fuma um cigarro de maconha.
    Também achei interessante porque, pela primeira vez, um filme aborda a violência sob a ótica de um policial e não do bandido, como sempre ocorre. E também achei interessante pelo que vc disse: Tropa de Elite mostra que há maus policiais, mas também que há policiais honestos.

    Mas, depois da segunda vez que assisti, fiquei pensando o seguinte: “Mas quem são as pessoas que a Tropa de Elite mata? São pessoas da nossa classe social: pobres e que moram nas periferias. Os homens do Bope, no Rio de Janeiro, sobem os morros para matar adolescentes e jovens negros que poderiam, quem sabe, ter uma outra alternativa de vida se a eles fossem oferecida ou, simplesmente, que têm direito a um julgamento e condenação, como a lei garante a todos os que infringem à lei.

    Por isso, entendo que os policiais honestos, talvez, não tenham culpa do que precisam fazer, mas a corporação Polícia Militar, como um todo, atende aos interesses da elite. Que elite? As pessoas que têm dinheiro, que exigem proteção, que exigem o fim da violência pelo meio mais “fácil”, digamos, fazendo limpeza social.

    Por que a Tropa de Elite não entra num bairro nobre para matar os criminosos de colarinho branco? Ou no Congresso Nacional, onde estão os maiores bandidos do Brasil? Matar adolescente pobre é mais fácil…

    É isso!
    Abraço pra vcs!

    Responder
  • 3. Giovane (aluno do superação)  |  Domingo, 4, 07 às 8:36 pm

    Na verdade deveria existir oportunidades p/todos, só assim poderia amenizar um pouco esse fantasma q persegue a sociedade. Violêcia se combate com violência, msm pq, os direitos humanos ñ estão presentes no dia-a dia dos moradores de favela q ñ têm ligação com o crime, esses sim são afetados diretamente pela violência sem fazer nada p/tal resposta. E tbm é importante lembrar q tem mtas pessoas q estão em ciclo criminoso pq querem, acham fácil essa “vida de bandido”, e tbm entram por status e poder, qdo tentam sair, já é tarde de mais, o crime já corrompeu seu caráter.

    Responder
  • 4. br  |  Domingo, 20, 12 às 8:41 pm

    nao li mas achei uma droga

    Responder

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